"O luto dos sobreviventes"


"O impacto de ser sobrevivente pode ter implicações mesmo se houver ou não o desfecho do suicídio, pois o sofrimento pelo risco iminente também é um processo doloroso". (Foto: Alana Soares)

A palavra Suicídio, derivada do latim sui (si mesmo) e caedes (ação de matar), não significa apenas a ação de matar a si mesmo, mas é, sobretudo, uma ação humana que implica em última instância um processo que gera consequências para as pessoas que ficam. Quem vive essa experiência é chamado de sobrevivente. 

Tão somente o fato de o sobrevivente ter convivido com uma pessoa que tirou a sua vida, determina que essa pessoa precisa de cuidados, haja vista que o choque desse acontecimento para o sobrevivente é um dos principais indicadores de risco de futuro de suicídio. Este risco, portanto, é maior que na maioria da população que não conviveu.

O impacto de ser sobrevivente pode ter implicações mesmo se houver ou não o desfecho, pois o sofrimento pelo risco iminente da ameaça de morte também é um processo doloroso. As reações que se tem ao risco provocam emoções como: medo, culpa, raiva, tristeza, ansiedade, vergonha, saudade.

Os sobreviventes também sofrem com a negação, depressão, isolamento, não aceitação daquela ausência, problemas de ajustamento, dificuldades de estabelecer novas relações, sensação de desamparo, queda de produtividade, desenvolvimento de transtornos mentais, aumento do uso de drogas ou álcool e desinvestimento em sua própria vida.

Para muitos, principalmente os mais próximos, a vida fica totalmente transformada. Então as pessoas precisam dar significados a essa perda, buscar um sentido em sua vida. 




Ninguém passa por essa experiência da morte por suicídio de uma pessoa que ama sem carregar marcas. Sobretudo, revela-se também resiliência, transformações e uma maneira muito especial de continuar a vida. Isso se dá porque esse processo de elaboração de luto é muito individual, depende de pessoa para pessoa, da história de cada indivíduo e do modo como cada um vê o mundo.

Uma outra diferença é a busca pela ajuda profissional para atravessar esse momento e outras não. Atravessar essa conjuntura tendo um cuidado especializado para dar atenção a essa dor, pode oferecer um suporte importantíssimo para trilhar novos caminhos aos sobreviventes e mudar suas próprias vidas.

Dessa forma, a extensão dessa problemática está para além da pessoa em si envolvida com sua dificuldade existencial, emocional ou do transtorno mental, enfim, em seu processo de sofrimento. Essa ação envolve às pessoas em torno, a família, os amigos, à sociedade.

Esse ato nos remete a uma sensação ameaçadora de que é possível perder alguém próximo. O que nos leva imediatamente a indagar: Qual o valor da vida? O que significa tirar a própria vida?

Polyanne Coimbra, Psicóloga convidada.

Engajados com a causa pela valorização da vida, o site Miséria abre esta coluna especial sobre saúde mental e prevenção ao suicídio. Contaremos com a colaboração de profissionais psicólogos e psiquiatras toda semana, até o dia 26 de setembro.




Por Polyanne Coimbra, especial para o Miséria
Miséria.com.br

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