Descoberta de brasileiros pode melhorar o sabor da carne bovina


Espécimes da raça Nelore, predominante nos rebanhos brasileiros (Foto: Pixabay)


Em um estudo publicado em junho no periódico científico BMC Genomics, cientistas brasileiros revelaram ter descoberto os genes que controlam algumas das mais importantes características da carne bovina, entre elas o sabor, a maciez e a qualidade. Encabeçada pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP, e pela Embrapa Pecuária Sudeste, a pesquisa foi iniciada há quase oito anos. Outras instituições participaram do estudo, como as Universidades de Iowa, de Nebraska e do Missouri, dos Estados Unidos, e o órgão de pesquisa agropecuária da Austrália, o CSIRO. 

O trabalho é o primeiro do tipo no planeta e teve como objetivo possibilitar um aumento nos lucros dos pecuaristas brasileiros ao melhorar a carne que oferecerem. O Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo e mudar o atual panorama de vendas de carnes pode provocar alterações na balança comercial nacional — para melhor.

O financiamento, vindo da Fapesp, foi aplicado em tentativas de descobrir quais genes são importantes para os traços que interessavam aos pesquisadores e como eles funcionam. Assim, eles procuravam entender melhor a qualidade da carne da raça Nelore, além das quantidades de gordura e ácido graxo presentes nela.

Para o estudo, foram analisados 30 touros e 2 000 vacas que se encaixavam nos critérios estabelecidos pelos pesquisadores. Eles geraram 800 novilhos, que, por sua vez, serviram para a investigação genética. A responsabilidade por essa etapa do processo recaiu sobre Luciana Correia de Almeira Regitano, da Embrapa Pecuária Sudeste.

Em entrevista exclusiva, Luciana disse que, no começo da pesquisa, os cientistas pensavam em identificar os genes específicos para cada característica da carne. “As regiões do material genético nós já conhecíamos. Faltava saber qual gene em particular era responsável por cada alteração no músculo do animal”, contou.

De acordo com Luiz Lehmann Coutinho, encarregado da pesquisa genômica do projeto, a ideia final é que se possa consumir carne sem a sensação de culpa devido à sua composição, aliando qualidade à saúde. Em conversa com VEJA, Coutinho afirmou que resta, agora, validar o que foi encontrado nessa população com gados comerciais e verificar o quanto essas novas informações contribuem com o melhoramento genético.

Depois dessa validação, seria possível que se identificassem as características de maciez, sabor e qualidade antes de o animal expressá-las fisicamente. Ou seja, os pecuaristas poderiam reconhecer os traços desejados em um novilho antes que ele envelhecesse e se tornasse ideal para o abate.

“Essa descoberta é importante não só para o melhoramento genético”, afirmou Luciana Regitano. “Podemos usar essa informação para outras aplicações, como para aumentar ou diminuir a expressão de certos genes usando drogas ou alimentos que possam influenciar no seu funcionamento”, explicou.

Apesar de todos os avanços, Luiz Coutinho afirma que ainda não foi alcançado o patamar da edição genética. Apenas depois de mais algum tempo de estudo é que se poderia editar os genes do animal. Para tanto, é preciso um conhecimento ainda maior do material genético do gado do que o que os pesquisadores atualmente detêm.

O foco do projeto, para Luciana Regitano, é permitir que, a longo prazo, o produtor possa produzir uma carne de melhor qualidade a um menor custo. Assim, ele poderá conquistar novos mercados de exportação e aumentar a sua margem de lucro.

O próximo passo dos cientistas é analisar como a presença de micro-organismos no rúmen (parte do estômago bovino) modifica a expressão de genes e seus fenótipos, como a qualidade da carne.

Fonte: Veja

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.